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A criptografia que promete esconder dados até da nuvem
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A criptografia que promete esconder dados até da nuvem

Cifras completamente homomórficas (FHE) já são funcionais, permitindo o processamento de dados cifrados sem descriptografia, mas sua aplicação em larga escala ainda é limitada.

Fonte original citada e enquadrada editorialmente pelo Cosmos Week. Pesquisa FAPESP Ciência
Assinatura editorialRedação do Cosmos Week
Publicado24 jun 2026 17h44
Atualizado2026-06-25
Tipo de coberturaJornalismo científico
Nível de evidênciaCobertura jornalística
Leitura4 min de leitura

Pontos-chave

  • Em foco: Cifras completamente homomórficas (FHE) já são funcionais, permitindo o processamento de dados cifrados sem descriptografia, mas sua aplicação em
  • Detalhe: Cobertura jornalística: verificar documentação técnica primária
  • Leitura editorial: reportagem científica; quando possível, confira a fonte primária citada.
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Cifras completamente homomórficas (FHE) representam um avanço significativo na criptografia, permitindo que dados sejam processados em ambientes de nuvem sem a necessidade de descriptografia prévia. Embora já funcionem na prática, essas cifras ainda demandam um poder computacional que excede a capacidade dos data centers atuais. O objetivo central dessa tecnologia é possibilitar que um servidor execute operações sobre informações cifradas, entregando um resultado correto sem jamais ter acesso ao conteúdo original. Essa capacidade é crucial para a privacidade e segurança de dados sensíveis, especialmente em cenários de computação em nuvem, onde a confiança no provedor pode ser uma preocupação. A criptografia moderna, em sua essência, baseia-se em operações matemáticas que são simples de realizar, mas extremamente complexas de reverter, como a fatoração de números gigantescos resultantes da multiplicação de dois números primos. Essa assimetria é a base de muitos sistemas de segurança digital.

Esse princípio é a fundação de métodos como o RSA, um dos algoritmos de criptografia mais influentes, desenvolvido em 1977. Contudo, a estrutura matemática de cifras como o RSA, embora robusta para a proteção de dados em trânsito, possui uma particularidade: ela permite a manipulação dos criptogramas sem que percam sua equivalência matemática com o conteúdo original. Essa característica, que em outros contextos poderia ser vista como uma vulnerabilidade, é precisamente a 'brecha' que a criptografia homomórfica explora. Ao invés de ser uma falha, essa propriedade se torna a base para a execução de cálculos diretamente sobre os dados cifrados, sem a necessidade de descriptografá-los, abrindo caminho para novas aplicações de segurança e privacidade.

A busca por uma criptografia que permitisse operações sobre dados cifrados não é recente. Em 2005, o criptógrafo israelense Dan Boneh fez um progresso notável ao criar uma cifra homomórfica que suportava duas operações matemáticas: permitia infinitas adições, mas apenas uma única multiplicação. Embora fosse um avanço significativo, essa limitação na quantidade de multiplicações restringia a complexidade dos cálculos que poderiam ser realizados sobre os dados cifrados. A capacidade de realizar múltiplas operações é fundamental para a utilidade prática da criptografia homomórfica em cenários complexos de processamento de dados.

O salto decisivo para a criptografia completamente homomórfica (FHE) ocorreu em 2009. Craig Gentry, então pesquisador da IBM e aluno de doutorado de Dan Boneh, publicou sua tese apresentando a primeira cifra FHE funcional. Esse trabalho inovador demonstrou a viabilidade de um sistema que permitia um número ilimitado de operações de adição e multiplicação sobre dados cifrados, sem a necessidade de descriptografia. A tese de Gentry não apenas provou a existência teórica da FHE, mas também forneceu um esquema prático, embora computacionalmente intensivo, para sua implementação. Esse marco abriu as portas para o desenvolvimento e aprimoramento contínuo dessa tecnologia.

Desde então, o foco da pesquisa tem sido aprimorar a eficiência da FHE para torná-la viável em escala industrial. O trabalho de pesquisadores como Pereira, por exemplo, abrange tanto o desenvolvimento prático, focado em otimizar processos como o 'bootstrapping' para reduzir seu custo computacional, quanto a exploração de aspectos teóricos. A complexidade inerente à FHE exige um esforço contínuo para refinar os algoritmos e as implementações, visando diminuir a sobrecarga computacional e tornar a tecnologia acessível para aplicações do mundo real. Reconhecendo a importância desse campo, a FAPESP aprovou, em 2025, uma bolsa Jovem Pesquisador de cinco anos sob a coordenação de Pereira, com o objetivo de impulsionar os avanços tanto na teoria quanto nas aplicações da FHE.

Apesar dos avanços tecnológicos, a adoção generalizada de soluções de segurança digital avançadas, como a FHE, enfrenta desafios que vão além da capacidade técnica. Um ponto crucial, conforme apontado por pesquisadores, é que a pressão por melhorias na segurança digital por parte de grandes empresas não depende apenas de regulamentações ou agências fiscalizadoras. É fundamental que haja um grau de conscientização coletiva sobre a importância da privacidade e da segurança dos dados, algo que, segundo o pesquisador, ainda está em desenvolvimento. Essa conscientização é essencial para criar uma demanda que incentive a indústria a investir e implementar essas tecnologias de ponta.