Simbiose em lagos suíços revela papel inesperado na ciclagem do nitrogênio
Uma pesquisa liderada por cientistas do Instituto Max Planck de Microbiologia Marinha, em Bremen, Alemanha, revelou que as simbioses microscópicas entre ciliados e bactérias.
Pontos-chave
- Em foco: Uma pesquisa liderada por cientistas do Instituto Max Planck de Microbiologia Marinha, em Bremen, Alemanha, revelou que as simbioses microscópicas
- Detalhe: Cobertura jornalística: verificar documentação técnica primária
- Leitura editorial: reportagem científica; quando possível, confira a fonte primária citada.
Uma pesquisa recente, liderada por cientistas do Instituto Max Planck de Microbiologia Marinha em Bremen, Alemanha, revelou um papel inesperado para as parcerias microscópicas entre ciliados e bactérias na ciclagem do nitrogênio em ecossistemas lacustres. Publicado no The ISME Journal, o estudo aprofunda a compreensão sobre o nicho ecológico dessas notáveis simbioses e a extensão da dependência do hospedeiro em relação aos seus parceiros microbianos. Essa descoberta desafia concepções anteriores sobre os principais atores na remoção de nitrogênio em lagos, apontando para uma contribuição significativa de organismos que antes eram subestimados nesse processo biogeoquímico fundamental.
O foco da investigação, conduzida por uma equipe liderada por Linus Zeller e Sina Schorn, do Instituto Max Planck de Microbiologia Marinha, recaiu sobre ciliados pertencentes à classe Plagiopylea. Esses microrganismos unicelulares são notáveis por abrigarem bactérias endossimbióticas que possuem a capacidade de respirar nitrato. Dentro dessa parceria íntima, os simbiontes bacterianos desempenham uma função vital: eles convertem o nitrato disponível no ambiente em gás dinitrogênio. Este processo não apenas remove o nitrogênio fixo da água, liberando-o para a atmosfera, mas também gera energia essencial que é utilizada pelo ciliado hospedeiro, estabelecendo uma relação de dependência mútua que é crucial para a sobrevivência de ambos os parceiros em ambientes com baixo oxigênio.
Para desvendar os mecanismos e a ecologia dessa simbiose, os pesquisadores do Instituto Max Planck de Microbiologia Marinha em Bremen uniram forças com colaboradores do Instituto Federal Suíço de Ciência e Tecnologia Aquática (Eawag) e da Universidade de Basileia. Juntos, eles empreenderam uma investigação detalhada da distribuição desses ciliados na coluna d'água de lagos suíços. A equipe comparou a presença e abundância dos microrganismos com diversos parâmetros ambientais, como níveis de oxigênio, temperatura e concentração de nutrientes, para determinar como esses fatores moldam o nicho ecológico da simbiose e em que medida os simbiontes influenciam a ecologia de seus hospedeiros. Essa abordagem multidisciplinar foi fundamental para contextualizar a importância da simbiose no ambiente lacustre.
O processo central observado nesta simbiose é a desnitrificação, onde os microrganismos convertem nitrato em uma série de compostos intermediários de nitrogênio, culminando na produção de gás nitrogênio (N2). Este gás, sendo inerte, escapa da coluna d'água para a atmosfera, efetivamente removendo o nitrogênio reativo do ecossistema aquático. A desnitrificação é um processo crucial para a saúde dos lagos, pois o excesso de nitrogênio pode levar à eutrofização, um fenômeno que causa o crescimento descontrolado de algas e a subsequente depleção de oxigênio, prejudicando a vida aquática. A identificação de ciliados como participantes ativos nesse processo adiciona uma nova camada de complexidade e compreensão à biogeoquímica dos lagos.
Os pesquisadores de Bremen estimam que a simbiose entre esses ciliados e suas bactérias endossimbióticas pode contribuir significativamente para a remoção de nitrogênio em lagos profundos e estratificados, como o Lago Zug e o Lago Lugano, ambos localizados na Suíça. Embora a contribuição exata possa variar consideravelmente de ano para ano, dependendo das condições ambientais e da dinâmica populacional dos microrganismos, a descoberta sublinha a importância desses pequenos organismos na manutenção do equilíbrio ecológico. A capacidade de quantificar essa contribuição é um passo importante para modelos mais precisos da ciclagem de nutrientes em ecossistemas aquáticos.
A revelação do papel desses ciliados na desnitrificação lacustre amplia nosso entendimento sobre a diversidade de organismos envolvidos nos ciclos biogeoquímicos e a complexidade das interações microbianas. Tradicionalmente, a desnitrificação em lagos era atribuída principalmente a bactérias de vida livre ou associadas a sedimentos. Este estudo demonstra que as simbioses eucarióticas-procarióticas também podem ser atores importantes, especialmente em zonas anóxicas da coluna d'água. Essa nova perspectiva pode levar a reavaliações das estimativas globais de remoção de nitrogênio em ambientes aquáticos e inspirar futuras pesquisas sobre outras simbioses microbianas com funções biogeoquímicas ainda desconhecidas.
Os resultados detalhados desta pesquisa foram publicados no artigo "Gradientes redox definem o nicho ecológico de ciliados com endossimbiontes desnitrificantes em águas anóxicas de lagos", de Linus M. Zeller e colaboradores, no renomado periódico The ISME Journal. Este trabalho não só preenche uma lacuna no conhecimento sobre a ecologia microbiana de lagos, mas também destaca a importância de abordagens integradas para desvendar os intrincados papéis que os microrganismos desempenham na saúde e funcionamento dos ecossistemas aquáticos.
Fonte original: Phys. org Biology