Exposição no Instituto Butantan revela as muitas caatingas
Mostra em cartaz até outubro reúne paisagens, animais e cultura do único bioma exclusivamente brasileiro
Pontos-chave
- Em foco: Mostra em cartaz até outubro reúne paisagens, animais e cultura do único bioma exclusivamente brasileiro
- Detalhe: Cobertura jornalística: verificar documentação técnica primária
- Leitura editorial: reportagem científica; quando possível, confira a fonte primária citada.
Ao adentrar o Museu Biológico do Instituto Butantan, na capital paulista, o visitante é subitamente transportado para a Caatinga, um bioma singular e exclusivamente brasileiro. A mudança na iluminação, que se torna mais quente, e os tons terrosos em vermelho e amarelo das paredes, substituindo a sucessão de terrários do acervo permanente, criam uma atmosfera imersiva. Este ambiente remete diretamente à Caatinga, que ocupa mais de 10% do território nacional e é o único bioma inteiramente localizado no Brasil. A exposição, em cartaz até outubro, reúne paisagens, animais e aspectos culturais desse ecossistema, desvendando a riqueza de suas múltiplas facetas.
Em consonância com a tradição do Instituto Butantan, a mostra exibe cobras e lagartos vivos, coletados durante expedições de campo pela bióloga Thaís Guedes, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Rio Claro. A pesquisadora destaca o desafio de recriar um ambiente tão complexo, afirmando: “Em 7 centímetros de solo, fazemos brotar um ecossistema. ” Embora as limitações sejam consideráveis e exijam a substituição periódica das plantas, a experiência de observar um fragmento vivo da Caatinga é profundamente marcante. O nome “Caatinga”, de origem tupi, significa “floresta branca”, uma alusão à paisagem árida e esbranquiçada durante a estação seca, um dos muitos aspectos que a exposição busca explorar.
Para enriquecer o panorama da fauna, a exposição também inclui aves empalhadas, cedidas pelo Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZ-USP). A bióloga Thaís Guedes ressalta a importância do zoólogo Miguel Trefaut Rodrigues, do Instituto de Biociências (IB) da USP. A partir dos anos 1980, Rodrigues foi fundamental na descrição de uma vasta gama de espécies de répteis e anfíbios, revelando a diversidade única presente na Caatinga e consolidando o conhecimento sobre a riqueza herpetológica do bioma, um legado científico que a mostra celebra.
A diversidade da Caatinga é visualmente explorada por meio de fotografias e ilustrações que retratam terrenos calcários, brejos de altitude, ambientes litorâneos e outras paisagens distintas, todas georreferenciadas em um grande mapa. Essa representação visual amplia a compreensão do público sobre a complexidade geográfica do bioma, que vai muito além da imagem estereotipada de um sertão homogêneo. Conforme afirma Thaís Guedes, a Caatinga “é uma região única, com uma história longa”, o que justifica a profundidade da abordagem curatorial em apresentar suas variadas fisionomias.
Para explorar a vasta escala temporal da ocupação humana na região, que se estende por mais de 10 milênios, a equipe responsável pela curadoria, em colaboração com Hingst-Zaher, buscou uma parceria com o Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP. A inclusão de artefatos arqueológicos na mostra permite exibir pistas valiosas sobre os saberes ancestrais, os hábitos alimentares e as complexas interações dos povos que habitaram a Caatinga ao longo de milênios. Essa seção oferece uma perspectiva cultural e histórica profunda do bioma, conectando a natureza à presença humana de forma indissociável.
A exposição no Instituto Butantan transcende a mera apresentação de um bioma, revelando as “muitas caatingas” que o compõem, conforme sugerido em seu título. Por meio de uma abordagem multidisciplinar que integra zoologia, botânica, arqueologia e fotografia, a mostra convida o público a uma imersão profunda na riqueza natural e cultural desse ecossistema. O objetivo é desmistificar a percepção comum da Caatinga como um ambiente homogêneo e árido, destacando sua complexidade, diversidade e a longa história de coexistência entre a natureza e as comunidades humanas, promovendo uma nova valorização desse patrimônio nacional.
Fonte original: Pesquisa FAPESP Ciência