Apesar de queda, taxa de gravidez na adolescência segue elevada no Brasil
Ter filho antes dos 20 anos dificulta completar os estudos e obter emprego mais bem remunerado
Pontos-chave
- Em foco: Ter filho antes dos 20 anos dificulta completar os estudos e obter emprego mais bem remunerado
- Detalhe: Cobertura jornalística: verificar documentação técnica primária
- Leitura editorial: reportagem científica; quando possível, confira a fonte primária citada.
A gravidez na adolescência impõe desafios significativos, dificultando a conclusão dos estudos e o acesso a empregos mais bem remunerados para as jovens mães. A adolescência, por si só, é uma fase de intensas transformações físicas, psicológicas e sociais. Nesse contexto, a maternidade precoce pode comprometer seriamente o desenvolvimento pessoal e profissional. No Brasil, apesar de uma queda observada nas últimas décadas, a taxa de gravidez entre adolescentes permanece elevada, com uma proporção notável de nascimentos – 11, 6 mil, ou 0, 6% do total – sendo de mães com idades entre 10 e 14 anos, um grupo particularmente vulnerável.
Um estudo conduzido pela ginecologista Denise Maia Monteiro, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), em colaboração com outros pesquisadores, analisou os registros do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc) e identificou uma redução de 44% no total de filhos de mães adolescentes ao longo de 20 anos. Contudo, essa diminuição deve-se, ao menos em parte, ao encolhimento da população feminina adolescente no país, que passou de 17, 5 milhões para 16, 2 milhões no mesmo período. Isso sugere que a queda percentual pode não refletir uma melhora proporcional na taxa de fecundidade por adolescente.
Em uma pesquisa publicada em 2020 na revista Women and Birth, a estatística Daiane da Roza, da Faculdade de Saúde Pública da USP (FSP-USP), e um coautor mapearam a distribuição dos nascimentos de filhos de adolescentes em todo o território nacional. Os resultados desse e de outros levantamentos indicam que, apesar da redução no número absoluto de nascimentos, a taxa de fecundidade de adolescentes na faixa etária de 15 a 19 anos no Brasil ainda é preocupante. O país, classificado como de renda média-alta pelo Banco Mundial, apresenta um patamar similar ao de nações mais pobres, evidenciando a persistência de um problema social e de saúde pública.
No período analisado pelos estudos, a mediana da taxa de fecundidade para cada mil adolescentes com idade entre 15 e 19 anos foi de 43, 3 filhos. Essa medida estatística é frequentemente utilizada para analisar dados com grande variabilidade, como as taxas de fecundidade, que podem oscilar de 0 a 200 bebês por mil adolescentes em diferentes localidades. A mediana é um valor que divide a amostra em duas partes iguais, indicando que metade dos municípios brasileiros apresentava uma taxa de fecundidade superior a 43, 3 filhos por mil adolescentes, enquanto a outra metade registrava valores inferiores.
A comparação internacional revela a gravidade da situação brasileira. A mediana da fecundidade nacional para adolescentes foi ligeiramente superior à média mundial, que é de 41, 3 nascimentos por mil garotas na faixa dos 15 aos 19 anos. Mais alarmante ainda é a diferença em relação aos países de alta renda, onde a taxa é significativamente menor, com apenas 11, 2 nascimentos por mil. Esses dados sublinham a necessidade contínua de políticas públicas eficazes para a prevenção da gravidez na adolescência e para o suporte às jovens mães, visando mitigar os impactos negativos em suas vidas e no desenvolvimento social.
Fonte original: Pesquisa FAPESP Online